
Vou tentar passar da parte em que eles metem uma bomba num carro "inimigo" e matam criacinhas ao estilo da ETA. Às vezes o que me chateia nestas cooperações são os danos coletrais das suas acções contra inocentes. Como grupos "gangsters" devia haver um código de conduta leal entre eles, ou seja, mulheres e crianças inocentes estaria fora de questão atingir (no SOA isso era válido tal como a família até dos membros rivais) e as lutas de interesse e de poder ficava só para quem joga o mesmo jogo. Mas essa é a minha forma lírica de ver as coisas.
Outra pergunta que tenho é como é que num grupo destes ultra fechado com regras interiores muito rígidas. Como um agente do FBI consegue lá entrar sem ser identificado? E depois de ser identificado em que parte suspensa fica a vida do infiltrado? E os infiltrados não terão vontade de passar para o lado mais real da vida que representam?
[No fundo estas dúvidas não são muito especificas neste caso. Tenho-as na mesma quando vejo documentários sobre a raça ariana ou sobre hooligans. O principio é o mesmo, excepto que os hooligans estão-se nas tintas se apanham mulheres e crianças pela frente, porque a ideia deles é varrer o que lhes aparece pela frente. Os da raça ariana tudo o que meche não branco o principio é o mesmo: varrer.]
No final das contas até é interessante ver esta questão das "gangues motociclistas" (eu nunca sei como os chamar) dos dois pontos de vista. De um lado os agentes federais que os vêem como criminosos comuns, que usam uma mitologia de liberdade apenas para esconder sequestros, tráfico de drogas e luta pelo poder; e os bikers que se vêem como homens independentes, com força suficiente para lutar pela liberdade que todos os indivíduos tem direito. Mesmo que para isso seja necessário lutar contra uma gangue muito maior – o governo - que finge defender a todos.

Sobre os primórdios dos Hell´s Angels, já li dois livros muito interessantes. Um li em Português de Portugal e outro em Português do Brasil (é que parece que não, mas há uma diferença). O primeiro, de 1966, foi o “Hell´s Angels”, de Hunter S. Thompson. O autor foi um jornalista que conviveu com o grupo. No início via os Hell´s Angels como uma parte do movimento hippie, mas depois começou a ver que havia grandes diferenças. É um livro leve (demasiado descritivo) que mostra o início do grupo, explica porque são chamados de 1% e como eram os seus encontros (espalhafato, drogas mulheres e cerveja). Durante o livro, a visão vai passando do fascínio para uma dura crítica. Mais tarde iria a ser sovado pelos protagonistas do livro e isso até foi depois confrontado à americana num programa de tv
O segundo livro tem o mesmo título, “Hell´s Angels”, de Ralph “Sonny” Barger. Publicado em 2001, conta o outro lado da história. Agora do ponto de vista do então (em 1966) presidente dos HA. Neste livro, fala sobre a filosofia dos HA, das modificações das motas e a propaganda gratuita que ofereceram involuntariamente à Harley Davidson e, principalmente, uma resposta ao Hunter Thompson.
No livro, Sonny conta a sua infância abandonado pela mãe com poucos meses e cuidado por um pai alcoólatra, a ida ao exército com apenas 16 anos, a fundação da filial de Oakland dos Hell´s Angels, as guerras entre gangues, as guerras com a polícia, a luta contra a justiça, as prisões, as drogas, as mulheres, as motos, a vitória sobre o cancro, etc etc. É um personagem polémico, pois defende que para ser livre é preciso lutar.
Lendo este livro, só conseguimos nos questionar até que ponto os motoclubes americanos são realmente criminosos ou apenas usados pela comunicação social e pelo governo? Onde termina o sonho anarquista e começa o crime comum?
Pois neste livro do Sonny consigo fazer esta pergunta, no documentário que hoje estou a ver não. No documentário que hoje estou a ver parece quase 99% que a verdade está na policia e no FBI e na luta contra os criminosos motociclistas. A ver este documentário até consigo acreditar que a policia está com a lei da razão em relação a este assunto.
Este dvd tem 4 episódios sobre os Hells. Os dois primeiros falam sobre os Hells no canadá e todos os 50m gira à volta da luta de poder pelas ruas de Quebec, droga e dinheiro. O 3º episódio não foge muito deste tema, com excepção que aborda já a parte europeia (copenhaga) do grupo. O que me baralha o sistema é que as imagens - as mesmas imagens - repetem-se quer na Europa quer no Canadá. São sempre os mesmos tipos a cumprimentarem-se, é sempre o mesmo dinheiro e a mesma droga a ser mostrada. Para uma pessoa exigente como eu isso não serve. LOL Neste 3º episódio fala-se também do ódio de estimação dos Hell: Bandidos. Que pelo que nos é mostrado, é mais ou menos a mesma coisa, mas com cores diferentes. Uma tipa como eu, que os vê num lado completamente fora da cerca, só consegue chegar a essa conclusão. Nada os diferencia a não ser as cores.
Se me perguntarem se gostei do documentário... ok. É um documentário à americana. Reduz a irmandade dos protagonistas da história - os Hells Angels - ao dinheiro e à droga. E eu, como menina lírica, gosto de acreditar que há qualquer coisa mais forte que os move. Gosto e pronto. Por muito que saiba que o dinheiro e o comércio ilegal de drogas tenha o seu peso (um peso enorme) gosto de crer que há outros valores que fazem movimentar estes grupos de indivíduos. Ver pessoas a morrer com tiros nas costas faz-me impressão. Até no tempo dos cowboys o "verdadeiro" cowboy matava sempre pela frente. Ver ataques à bomba à la moda da ETa é bizarro (a manipulação fácil da opinião publica quando indicam que x casal inocente morreu tinha 3 filhos menores); o simples passeio é sempre mostrado com as notas a correr. Aliás não há nenhuma acção dos Hell construtiva. Nenhuma. Igual a zero. Nem no último episódio quando aborda os mecanismos de inserção deste tipo de grupos. Aliás o último episódio já eu tinha visto em alguns sctachs no youtube. Principalmente a cena do casino que foi das primeiras (se não a primeira) cena sobre eles que vi na net. Restou-me a consolação de reencontrar o "meu" Kit de natal. Oh Lord! He's really a sin!
Se eu gostei do documentário? Não. Achei-o demasiado tendencioso. Não gosto de ser assim manipulada desta maneira. Não vi o documentário como uma reportagem jornalística totalmente imparcial. Aliás dos dois livros e este documentário que já li e vi sobre o assunto, quase que arriscaria a ser politicamente incorrecta e dizer que o que me encheu mais as medidas foi mesmo o livro do Sonny. Também é tendencioso para o lado deles, obviamente, mas foi o que gostei mais (os MC não são organizações criminosas, embora muitos integrantes sejam individualmente criminosos, 2) a polícia exagera muito os estragos causados pelos MC para conseguir eleger comissários ou conseguir mais recursos financeiros. Toda uma teoria muito bem contada cheia de histórias emocionantes, como diz o autor, acima de tudo, história de irmandade para andar de mota, acabar em festas, ter um compromisso com algo e se sentir pertença a um grupo.).
Eu ainda não perdi a esperança de encontrar um livro ou um documentário (de preferência não americano) que não tenta defender um ou outro lado, mas sim compreender o que acontece.
Hoje não foi o dia.
Epah tens de me emprestar esse dvd...
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