
Amor e amizade
O que ama não ama o que deve, mas o que teme e odeia. Ama o outro como se odeia a si próprio. Ama o proibido, o incompreensível, o que está do outro lado da realidade. Ama o que não compreende, o que se nega e sobretudo o que se nega a si mesmo. Entra triunfante em cena, com o arsenal da especulação, segredos, murmúrios e presságios. Vai pelo mundo curvando a espinha e preparando a vingança. É um ser revolucionário: suicida o amor. Afinal são sempre os outros que dão sentido à nossa vida…

Anjos
Os rotulados anjos arrogam-se detentores de valores que não possuem, prometem a liberdade que não consentem.

Beber
E nós bebemos. Venha o que tiver que vir. Cruel é a mão que empurra a vida, tremendamente.

Coragem
A coragem é a capacidade de nos responsabilizarmos sem desculpas infantis pelos nossos actos. Eu, pelo menos, quando for grande quero ser assim!

Despedida
Toda a despedida é uma ferida. Todas as estradas bloqueiam. Deixo um recado de lágrimas. Não volto. Nunca mais volto. Um enorme lápis vermelho espetado no coração.

Exílio
Face à brutalidade do quotidiano, Gabriel Garcia Marquez optou pelo exílio. Será que a solidão pode-se celebrar em solidão?

Guerra
Parafraseando E. Roudinesco, retomaria a famosa frase de Mirabeau, pronunciada a 5 de Maio de 1789 e destinada aos “deputados das comunas”: “Basta-me permanecer imóvel, para me tornar formidável, face aos meus inimigos”.

Helena
Ao fim ao cabo, sou uma veterana de guerra. Li as tragédias gregas e reconheci-me em Antígona, Electra e Ifigénia. Cedo percebi que não vale a pena falar delas ao psiquiatra porque ele não as leu. Não espero justiça. Nem compaixão, nem lágrimas. Na melhor das hipóteses permanece a antipatia; e se estava a tomar dois zypreexa, passei a tomar cinco.

Infelicidade
É o infeliz que faz a revolução. Que contesta os lideres e a hierarquia, que peita a vida e diz não. O prozac é um equívoco. E o mau humor é uma dávida.

Jogos
O meu mundo é uma terrível fábrica de sombras e de silêncios. Por isso os jogos onde eu entrei e os poemas que fui escrevendo são um sinal forte de recusa perante a morte, perante todas as mortes.

Liberdade
Era uma vez uma cidade de anjos que mantinha prisioneira uma menina com os olhos tristes…

Morte
A morte dos nossos amigos desterra-nos, convida-nos à sabedoria de um amor sem lugar.

Naíf
Naíf tantas vezes confundida com ignorância, estupidez. Quando compreendemos as regras do jogo, estamos condenados à inocência da estupidez ou da preguiça? No entanto, eu faço coisas boas e coisas más e ainda não perdi a minha inocência. Daí a minha perplexidade. Se a inocência é o que consta que é, e se se perde como consta que se perde, não deveria-a já possuir.

Ódio
Hitler afirmou ser o “ódio, o mais estável dos laços”. A irracionalidade permite o eco da mentira, o crescimento da pequena infâmia, a ampliação do boato. É com isto que contam os que infundam, isto é, na eficácia, tantas vezes conseguida, do “não há fumo sem fogo”. Os mecanismos da propagação, a indução e o contágio, vão garantir quase sempre que o german da dúvida, o cheiro da suspeita, fiquem “colados” aos “acusados”, garantindo o êxito da tarefa.

Pecadores
É preferível os pecadores que ainda não perderam a esperança de vir a ser santos, do que aqueles que ambicionam apenas que ninguém os chateie.

Quarto
Quarto minguante ou quarto decrescente? Não sei, dizem que a lua é mentirosa... Eu acho que ela só apresenta outra alternativa da realidade; ou melhor, as relatividades das coisas. Criticar, na verdade, é importante; mas acusar é política.

Suicídio
Desesperada, ainda tentei escrever uma carta suicida, mas faltou-me as palavras. E assim morri “institucionalmente”. Ao lado do meu corpo foi encontrado apenas um papel com o meu nome, umas aspas e um ponto de exclamação.

Sweet about
Poderia ser apenas uma lenda. Mas não foi. Mais de que uma vez Helena declinou convites milionários para se avassalar à vingança, alegando que não era louca o suficiente para desafiar os deuses.

Telejornais
Metem-nos pelos olhos dentro que o discurso da desgraça cria e adensa a desgraça — e mesmo assim os profetas não param.

Universo
Deixámos de poder contar com o que quer que fosse que conhecíamos.

Voyeurismo
Quando uma pessoa adora praticar observação social

Xeque-mate
Fracassamos quando visualizamos a derrota, antes do xeque-mate. Quando abandonamos a luta, com medo da discórdia. Quando ouvimos o Não, antes da pergunta. Quando silenciamos, com medo da resposta. Quando o dia amanhece, na hora que deitamos. Quando o sono vem, e não nos entregamos. Quando o medo de sonhar, se transforma em pesadelo. Quando a vida se dilui, na busca do que fazemos. Quando a chave da verdade, abre as portas da mentira. Quando lamentamos na chegada, a hora da partida. Quando o Amor vai a leilão.

Zapping
Se pudesse, fazia “zapping” com a vida: saltitava de cenário em cenário, de ocupação em ocupação, sem que ninguém desse por isso. Às vezes é ansiedade. Não saber estar quieta. Não saber descansar. Não perder nada, procurar tudo e tentar agarrar tudo ao mesmo tempo. O que me leva a zero. A menos que zero.
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