Eles seguem-me, mas eu não faço puto de ideia para onde estou a ir...

sábado, 17 de dezembro de 2011



O Natal acaba por ser um tempo de confrontação. Confrontação com a falta de família, com os conflitos de família, com os assuntos pendentes na família, com os limites da família... Com a aproximação do Natal aumenta o bulício das ruas e as preocupações das gentes.
Independentemente de tudo o que o Natal já foi, e ainda é para grupos restritos de pessoas, temos que, hoje em dia, o Natal é, de facto, a festa da família. Uma festa em que é suposto a família reunir-se, comer guloseimas e trocar prendas.
A primeira e grande questão é mesmo a que resulta do facto das famílias que temos se afastarem bastante das famílias idealizadas que o marketing todo-poderoso não se cansa de promover. Como a distância entre as famílias reais e essas outras que vamos interiorizando que deviam ser é enorme, o Natal acaba por ser um tempo de confrontação. Confrontação com a falta de família, com os conflitos de família, com os assuntos pendentes na família, com os limites da família e também com famílias de que não gostamos ou que não gostam de nós.
Vivemos num tempo de famílias muito pequenas. São muitos os filhos únicos e as famílias à beira da extinção pela não reprodução. São poucas as crianças em fase de fazer do Natal o tempo mágico que se gostaria que fosse. São mais os idosos que os jovens e são muitas as separações e divórcios em todas as gerações.
O simples facto de um casal jovem de filhos únicos, por exemplo, ter que rodar por casa dos respectivos pais, já implica que cada família de origem fique com a sensação de que tem um Natal coarctado. Se este mesmo casal jovem tiver um dos pais em segundas núpcias, a complicação agudiza-se, porque fica logo com dois dias para estar com três famílias. Se, por acaso, um deles tiver um filho de uma anterior relação, o drama instala-se, porque a separação das pessoas mais significativas é incontornável.
Acresce a esta realidade complexa a obrigação de trocar prendas. E as prendas são, como se sabe, uma demonstração, não só do próprio estatuto, mas da importância que se concede aos outros, do cuidado que se colocou na escolha, da atenção que se prestou ao gosto ou às necessidades de quem vai receber.
Por tudo isto, o tempo de Natal é um tempo de teste às famílias. A que normalmente se sobrevive sem grandes recordações nem decepções.

Texto de Isabel Leal

Sem comentários:

Enviar um comentário

Sweet messages