
Presa a memórias sem rosto em todos os lugares habituais, pelo tempo que em alguns deles se passou. Vidas que se vivem procurando afastar-se dos lugares habituais. Afastam-se porque os lugares são habituais e porque me afastam deles. Era para continuar, deveria continuar, sem me afastar, mas eles já se tornaram um lugar habitual.
Paro, escuto e olho. É bom parar, escutar e olhar.
Para a nova jornada, a máxima bekettiana tentar de novo, falhar melhor. As maneiras de falhar causam problemas, estão na sua raiz, inquietação inútil, sensação de inconsequência, e… tudo o que mais vem. Mas tudo o que acaba falha e tudo o que começa se prolonga por sucessivos falhanços. O dia que começa é a falha do dia anterior. Nada de mal nisso. Nem de bem. Que a ética só muito às vezes. O que é preciso é velar pelos falhanços, para que sejam cada vez melhores, para que o falhanço de hoje não seja o mesmo de ontem. O falhanço exige trabalho, é esta a minha máxima, por ora. Falhar sem esforço é o pior que pode acontecer. Desprezo os que falham sem esforço, pois não sabem que falham. Amo os que falham: se me disseres que falhaste, tens a minha mão e és a alegria dos meus olhos.
Uma imbecil é um tipa contente consigo mesma. Uma idiota não chega a tanto e às vezes chega até a decepcionar-se consigo mesma.
"Esperança há muita, mas não para nós." disse Kafka. E por isto e por aquilo e por que sim e por que não. "E sim e não e não e sim. Ora, ora." Que se vê e ouve. São palavras, estas últimas, que marcam o ritmo das densidades — ou da densidade.
Não calar para manter quente, para não esfriar e perder a faculdade de florescer, de enriquecer o olhar. Diferentemente de ter esperança, que é confiar no acaso, na gramática, no direito ou nos deuses, acalentar é confiar na transformação do Universo — que não diz nada a ninguém, e que não precisa. E sim é não e não é sim.
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