
Sinto saudade da felicidade simples. Às vezes a infância tem destas coisas, possuímos tudo o que precisamos para ser feliz, mas ainda não temos maturidade suficiente para perceber e aproveitar tudo.
Lembro-me como se fosse ontem as brincadeiras com crianças que eu via duas vezes por ano, mas que pareciam amigas íntimas, lembro-me da curiosidade genuina e o carinho pelos animais, o medo do escuro, a tornura com os pais.
Sinto saudade de esperar o Menino Jesus chegar e de como descobri com alegria, não com tristeza, que eram os meus pais que colocavam os presentes na chaminé. Sinto saudade de brincar com os brinquedos tão desejadas, de projectar neles a vida que gostaríamos de ter e de sonhar com o nosso futuro. As crianças são tão cheias de sonhos e isso é tão bom...
Tenho saudades da maneira como eu percebia o tempo: vasto, indeterminado, infinito, diferente de hoje em dia que ele me parece sempre fracionado, finito, limitado. O tempo não tinha limites. Quando me chamavam para almoçar eu ía mas antes disso não tinha nenhuma preocupação em almoçar. Simplesmente almoçar acontecia, assim como ir ao colégio acontecia, não me programava, nada, apenas ia, e o tempo não tinha divisões, não era planeado, não tinha interrupções. Era um tempo contínuo onde as coias iam acontecendo... Aliás penso mesmo nisto, tenho saudade desse tempo não medido, indeterminado, vasto.
De uma época em que tudo era diversão e não tínhamos obrigações.
É certo que se não tivéssemos vivido não seríamos hoje aquilo que somos. Não seríamos nada. O passado, embora haja quem diga que não existe, o meu passado sou eu. Já não há retorno nem retrocesso, nem sequer podemos reduzir a velocidade, para descansar, fazer uma pausa. Os cheiros, os aromas da natureza, da terra, das plantas, das flores e dos frutos. O cheiro da noite, da terra húmida, do orvalho da manhã. De quando vivia no Mucifal.
Lembro os livros que li. "Crisitan F" às escondidas dos meus pais. Debaixo dos lençois com uma lanterna. Aquela leitura escondida fazia de mim um ser importante, lia coisas que os outros não liam, corria a minha mente por tempos e espaços que eram só meus, falava com aquelas personagens como se fossem minhas amigas elas faziam parte do meu mundo.
Tanto futuro há minha frente e eu às tantas a recuar para trás. Dizias tu mano que eu ía sempre ultrapassar grandes obstáculos porque "voava" como ninguém. Pois sim mano, aprendi a voar e agora a terra já não é o meu limite. E se calhar nunca foi. Criei depois de partires uma redoma de vidro em que vivo eu, a piquininina que fui e tudo o que sonhei e não consegui ser.
Saudades dos dias felizes
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