Liberdade por uma noite. Só por uma noite, a liberdade de ser outra pessoa. Um mundo inventado, posso ser livre só por uma noite. O que conto aqui hoje é uma história, tal como o resto da vida. Que existe um novo começo, um fim diferente. Eu posso mudar a história. Eu sou a história.
Ele: "Tem confiança em ti própria, mesmo quando erras. Não há caminhos errados, apenas o caminho que tens de percorrer."
Eu: " Se o caminho não for dar a lado nenhum?"
Encolheu os ombros.
Ele: "Faz com que o lado nenhum seja algum lado."
Sorri.
Percebo imenso de disfarces. Disfarço-me para enganar as circunstâncias. Visto-me e não os consigo despir. Será que isso me prende ou me liberta?
Ele: "Hás-de encontrar o teu futuro. Acreditas demasiado na tua irrealidade para desistires dela."
Descontraí e enchi o peito de ar para enfrentar a situação. Venha a vida ou a morte, há um papel que temos de representar e é tudo. O meu disfarce ganha vida para meu espanto. E se calhar, para o dele.
Ele: "O que é que aconteceu à actriz omnisciente?"
Eu: "Tornou-se interactiva..."
Os mais pequenos acidentes desvendam novos mundos.
Ele: "Pareces ter uma vida sem surpresas."
Eu: "Não, nem por isso. Eu sei que ela há-de-me rebentar na cara."
Ele: "E o que te trouxe até mim?"
Eu: "Uma história que estou a escrever"
Ele: "É sobre nós? Sobre mim?"
Eu: "Não"
Ele: "É sobre o quê, então?"
Eu: "Fronteiras, medos, pequenos ódios, saudades..."
Ele: "Não sabes escrever sobre mais nada?"
Eu: "Não"
Ele: "Então porquê eu?!"
Eu: "Outro disfarce"
É só isto que eu tenho. Só isto que posso ter a certeza. O resto foi-se.
Eu: "Um estranho é um lugar seguro. Podes contar tudo a um estranho."
Ele: "Com a idade, os lugares seguros começam a fechar-se."
Não respondi. Já tinha ouvido argumentos semelhantes. Dizem alguma verdade, mas não toda a verdade, e a verdade que negam é uma verdade sobre o coração. Só o coração protesta.
Ele: "Há qualquer coisa errada."
Eu: "Com o quê?!"
Eu: "Não sei. És uma pessoa de absolutos. Tudo ou nada. Sempre. O meio termo, já lá tiveste?"
Lembrei-me de repente de Torga: "Não acredito em nenhum de vocês. Não são quentes, nem frios. E, se leram o Apocalipse, sabem que até Deus vomita os mornos." Eu não sei, mas se Deus o faz, nada me impede de lhe seguir a náusea. Mais vale prevenir do que remediar.
Eu: "Viu-o num mapa."
Ele: "Tu queres sempre tudo!"
Eu: "E qual é o mal?"
Ele: "Nada; mas não tens de ser tu a pagar o preço."
Eu: "Estás a dizer que eu quero ter a fama e o proveito?"
Andava à procura de uma armadilha. Não me apercebi de que seria montada para mim.
Ele: "Até gosto de ti".
Eu: "Porquê? Ninguém gosta de mim... O meu mundo é um ringue de box, sabes disso."
Ele: "Queres mesmo lutar com toda a gente?"
Eu: "Só contra o inimigo".
Ele: "É assim tão simples?"
Eu: "Se fores muito subtil acabas por te enredar numa data de nós."
A conversa fora uma antecipação... não sei de quê... Na imaginação tudo pode ser perfeito. A culpa é minha. A querer que me apanhassem.
Isto parece um filme. A preto e branco. Vejo bem os contornos. Tenho de me ir embora. Por que é que não vou? Sou eu quem manda em mim, mas nem sempre me consigo dominar.
Ele: "Tu estás-te nas tintas, não estás?"
Eu: "Para ti? Não."
Na verdade, já foi há muito tempo. Parece ter sido outra vida até que me lembro que foi minha vida. Há feridas que nunca saram. A verdade é que os amigos invisíveis esmagam a vida como um glaciar, e mesmo que tenha um coração como o Titanic, eu sei: vai acabar por se afundar.
O fim dum "vicio" é uma assombração. De sonhos. De silêncio. Quando somos assombrados por fantasmas, é fácil tornarmo-nos fantasmas. Quando tudo o que nos acompanha são " amigos invisíveis " tornna-se fácil sermos também invisíveis. A vida esvai-se. Há quem me dê palmadinhas nas costas e me diga que estou a sarar. Só vêem à superfície. O disfarce do sorriso. A boa disposição. De resto, há uma perda de controlo de certa forma reconfortante. Às vezes precisamos de um fim diferente.
Sem problemas. Sem complicações. Nem sequer adeus. Então é assim que acaba. Tropecei por acaso na vida dele, descobrira que queria ficar, e depois tropeçara de novo para dentro da minha, sem uma pista, um sinal, uma maneira de acabar a história.
Liguei a net. Não tinha e-mailes à minha espera. Desespero. Tinhas-te escapado da história. Escapado da minha vida. Estou à procura de alguma coisa, é verdade. Talvez tenha estado à nossa procura toda a minha vida.
Ele: "Um dia este mundo virtual há-de-te destruir!"
Aquilo que era uma boa razão tornou-se uma boa desculpa.
Não sei se aquilo que ouço é uma resposta ou um eco. Talvez não ouça nada. Não importa. A viagem tem de ser feita.
Ele: "Pensaste que podias começar algo e terminá-lo quando te apetecesse, não foi?"
Tento avançar com esta história, tento evitar os finais, tento fazer colidir o mundo real com os imaginários. O mundo virtual que encontro na net é paralelo ao meu. Falo com pessoas cuja identidade não consigo provar. Antigamente, o real e o inventado eram linhas paralelas que nunca se cruzavam. Devemos ouvir estas nossas vidas que nos pressionam. O que é que me segue para onde quer que vá?
Ele: "Porque é que acreditas em mais do que uma realidade?"
Eu: "Não acredito. Eu sei que só existe uma realidade. O resto é uma maneira de escapar."
Fulminaste-me com os olhos. Olhei-te com indiferença. Ou quase. Eu sou uma mensagem. Tu mudas o sentido. Todos os becos sem saída que parecem tão importantes na vida são coisas que acontecem à margem.
Os amigos invisíveis estão onde parecem estar. Se estendermos a mão para os apanhar, falhamos.
Ele: "Afinal o que é que queres?"
Eu: "Nada. Não sou o Bugs Bunny. Quando ele me arrancar a cabeça, ela não aparece outra vez em cima do meu pescoço."
"Devias deixá-lo partir." Digo para mim. "Por amor de Deus, deixa-o ir." Repeti. O meu coração batia e eu estava zangada. Comigo ou com ele, não sei. Era demasiado tarde e fiquei ali à espera feita tola. Rezei que me desse o bom senso de não me despenhar, outra vez. Por que é que a minha história é sempre uma corda bamba entre dois mundos?
Não há maior dor do que não achar qualquer felicidade senão na felicidade que já passou.
Ele: "Acabas sempre por te enterrar cada vez mais..."
Eu: "Se ao menos conseguisses aceitar-me como sou. Não sei como desistir de ti."
Ele: "Podias reescrever a história."
Eu: "Já tentei. Não reparaste? Se calhar devias tentar saber mais coisas."
Ele: "Sobre ti?"
Eu: "Sobre o que me faz ser quem sou."
Há uma grande saudade exilada de um sítio onde jamais poderei voltar. Nesta vida tens de ser a tua própria heroína. Temos de conquistar aquilo que mais desejamos com a nossa própria força e à nossa maneira. A vida é uma viagem; mas eu sei que a vou fazer sozinha. Para evitar que me descubram, ponho-me a andar. Previno a queda para qualquer dos lados.
Sinto-me feliz, de uma maneira triste. Será que importa o final? Uma vez perguntaste-me se eu tinha medo da morte. E eu disse que tinha medo de não viver. Guardar, reter, reservar o melhor para o fim é uma forma simultânea de sobrestimar o eu e de subestimar a identidade. Do eu. Eu sou o que o espelho reflecte e inventa. Tenho a liberdade de ir e vir conforme me apetece. Tento transformar isto em poder. Tenho demasiado medo para fazer outra coisa. Ando à procura de alguma coisa, é verdade. Não sei como isto vai acabar.
Ele: "Não podes ter segurança e risco ano mesmo investimento..."
Ri-me. Desviei o olhar mas ele continuou:
Ele: "Para ti isto não passa de um jogo, não é? Parece que foste apanhada na tua própria rede."
Eu: "Talvez... Mas eu não quero que sejas para mim outra armadilha ou uma ratoeira."
Ele: "És incrível! Sempre a atear, sempre com o fogo a queimar!"
Eu: "Arde até se extinguir, não te preocupes."
O único poder que tenho é o poder negativo da abdicação. Se não abdico não tenho poder nenhum. E depois penso "Por que sou assim? Por quê?" Submeto-me incondicionalmente à forma como meço as minhas forças, para ver o que será resgatado — para me impedir de me fechar. Não quero fechar a ferida.
Estamos em silêncio. O tipo de silêncio de quando já não há mais nada para dizer. O filme mudo dos meus sentimentos. Não posso ser uma exilada do meu próprio passado. Não posso desenredar a minha vida inteira. E não posso recomeçar do zero. Como posso dizer que sim quando tudo à minha volta diz que não? A minha vida não faz puto de sentido. Só recomeçando o mais perto possível do zero é que poderei dar sentido a tudo isto. Depois há um momento em que o tempo fica tão quieto que pára completamente. Uma vida não chega.
Para evitar que me descubram, ponho-me a andar. O que mantém esta tensão é a própria tensão. A corda entre o mundo que herdo e aquele que invento. A atracção entre o que sou e aquilo em que me posso tornar. Puxo constantemente a corda. Puxo constantemente a vida com todas as minhas forças. E a corda começa-se a desfiar, mas não me interessa. Nada me garante que venha a encontrar o que eu procuro. Será que isso me deveria deter? Hoje em dia todos querem garantias. Será que a vida não nos dá qualquer garantias?
Ele: "O que tens?"
Eu: "Nada."
Eles: "O nada é a coisa mais perigosa de todas."
Eu: "Por quê?"
Ele: "Se não há nada, podes inventar alguma coisa. Não conseguirás suportar o vazio."
Eu: "Não invento. O que digo a mim própria é verdade."
Ele: "Não, o que tu dizes a ti própria são histórias."
Eu: "Não! Isto é a minha vida. Vida real."
Ele: "Quem te disse?"
Eu: "Ninguém. Não há ninguém que pague para ver."
Ele: "E tu? Pagarias para ver?"
Eu: "Eu pagaria fosse o que fosse para não viver nela."
Ele: "Então não vivas, bolas! MUDA-A!"
Eu: "Tu não atinges, pois não?"
Ele: "Eu não atinjo o quê?"
Comporto-me como se estivesse livre, mas sou uma nota de resgate. Eu paguei para ver. A promessa consiste em estar sempre a recomeçar. Será que ninguém acredita nisto?
Liberdade só por uma noite. À espera do momento para começar. Toda a vez que me preparo para abandonar o meu labirinto, volto de novo, excitada, convencida. Mas o labirinto está vazio. Ou seja, está vazio daquilo que eu procuro, apenas cheio de gente à procura. A vida é o que realmente é. O fim de uma identidade, o começo de outra.
Vou para casa voltar a escrever a história. Continuo a escrevê-la porque um dia eles vão lê-la. Eu posso mudar a história. Eu sou a história.
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