
Era uma vez uma mulher que nunca tinha amado. Não, não é verdade. Tinha amado, mas fazia tanto tempo que as lembranças eram vagas e imprecisas. Então a mulher era triste e melancólica. Confiava em poucas pessoas e recusava-se a acreditar nas histórias de amor que lhe contavam. Até que um dia a mulher conheceu um rato muito esperto e cheio de truques. Primeiro sentiu medo, depois encantou-se. O rato, que de tolo não tinha nada, era capaz de coisas espectaculares, que surpreendiam e faziam sorrir a mulher que antes era triste. Em troca pedia pedaços de queijo e ela dava. Um beijo e um queijo, um beijo, um queijo e um cigarro depois.
Os anos foram passando e a mulher, agora feliz, andava pelos lugares distraída, com aquele olhar patético, típico de quem conheceu um rato flautista. O rato só não era o seu companheiro inseparável porque tinha outras coisas com que se ocupar, outros queijos a devorar. Claro está que ratos encantadores não são - e nem devem ser - privilégio de uma única mulher. Mas o ratinho era atencioso e engraçado, preocupado e companheiro. Sempre que podia aparecia, piscava os seus olhinhos redondos e fazia truques com as mesmas mãozinhas pequenas com as quais depois gesticulava ansioso, pedindo a sua fatia de queijo.
Viveram várias aventuras, a mulher e o rato. Desbravaram horizontes, exploraram ilhas desertas e alcançaram limites que nem sequer imaginavam existir. Quando ela ficava triste, o rato consolava. Quando ele ficava zangado com a vida, a mulher ouvia os desabafos e passava-lhe a mão pelo pêlo com as pontas dos dedos para acalmá-lo. Ela, que era tão grande, tinha o dom da delicadeza e da ternura; ele, tão pequenino, tinha uma força capaz de conduzir e fazer com que a mulher sentisse que finalmente tinha encontrado alguém que poderia acalentá-la nos momentos de tristeza e solidão. Eles eram felizes lá do jeito deles. Até que um dia...
Até que um dia o rato chegou na casa da mulher enrolando os bigodes e com uma expressão de tristeza nos olhinhos redondos. Contou que iria embarcar no próximo navio. Trazia nas costas uma trouxinha de tecido xadrez presa na ponta de um galho de uma árvore. Nunca mais eu volto, repetiu o rato. A mulher sentiu primeiro uma agulhada no coração. Pensou em veneno para ratos, em armadilhas com pedaços de queijo e até em gaiolas trancadas com cadeado onde pudesse deixar o rato morrer de fome e de saudade. Depois a raiva passou e a mulher sentiu a mão gelada da solidão passear pela sua alma novamente. O que vai ser de mim? perguntou num fio de voz. O rato não soube responder. Ninguém saberia responder.
Naquela tarde a mulher quase não pôde ver o último truque do rato que julgara amar, porque tinha os olhos cheios de lágrimas. Entre o choro e risos bateu palmas e pediu bis. Deu ao rato os melhores pedaços de queijo que encontrou. Fez os carinhos mais suaves de que era capaz e tratou o rato com mais amor do que nunca. Quando a tarde caiu, olhou pela janela enquanto o rato se afastava com os seus passinhos ligeiros. Ele não olhou nenhuma vez para trás. Talvez para não mostrar que os seus olhinhos redondos também brilhavam com lágrimas, pensou a mulher. Ou talvez para esconder os seus olhinhos redondos completamente secos, disse uma voz distante a fazer de vez o seu amigo invisível. A mulher não se surpreendeu: era a sua velha amargura que voltava para acompanhar os dias cinzentos, as tardes longas e as noites de insónia.
E era durante essas noites que a mulher chorava um pouquinho enquanto cantava uma canção inventada pela tristeza, que dizia que um romance entre um rato e uma mulher nunca deveria acabar assim. Dizia também que ela agora nunca mais teria um rato, porque por causa do rato conheceu os cães, e aquilo que ela acreditava que era os ratos que tinham, afinal estava enganada. “Se és um rato e não és um cão, porque te meteste então com os cães?”. A mulher queria um cão como um rato…
Dizem que a mulher às vezes ainda chora quando lembra do ratinho. Dele ninguém mais soube, mas toda a gente aposta que foi feliz para sempre. Mesmo que de vez em quando sinta uma saudade pequena - ratos são pequenos, por isso sentem saudades pequenas - da mulher grande e dedicada que um dia conheceu. Dizem também que amores entre mulheres e ratos só podem mesmo acabar assim…
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