Encontrei-o na rua. Nos acasos das esquinas. Já não o via desde meados dos anos 90. A última vez que tive noticias dele, tinha sido preso já não me lembro bem porquê. Vidas desistidas. Tinha o mesmo olhar profundamente vencido. Vestia umas calças de ganga russadas, camisola à cintura, botas com biqueira de aço... sofocava.
Tentou mostrar, como sempre, que continuava a ser um "duro", quando, ele sabe que eu sei, que por dentro não deixa ter nada a não ser uma teia mal alinhada. O que ele não sabia, é que eu, também já era assim... desalinhada. Em estado de sitio.
Ele: "Continuas na mesma... sempre a observar... a entrar dentro de nós..."
Sorri. Olhei para ele com as mãos nos bolsos das calças. Não parei de olhar e sorrir. Lembrei-me de quando era totalmente descontrolada, mas não consciente das minhas fragilidades. Fazia as coisas porque me apetecia, porque me divertia, sem qualquer culpa na consciência. Agora continuo a fazer as mesmas coisas, de uma maneira mais soft e com culpas no cartório. É o problema de ganharmos idade e consciência.
Ele: "Não os deixes chegar, fecha-lhes a porta na cara. Só tu é que podes decidir se os deixas entrar ou não."
Fiquei em silêncio. Os zuns zuns das abelhas também tinham chegado até ele.
Ela: "Quebrei. Só que me habituei a disfarçar tudo."
Ele: "Olha para mim. Olha para eles. Que achas que eles pensam de ti? O que pensavam ontem e o que pensam hoje? Achas mesmo que alguma vez foi diferente?"
Olhou-me zangado. Visivelmente zangado. Comigo? Com a conversa? Com ele? Não sei...
Ela: "Aprendi a estar pronta para responder às provocações. Qualquer uma. Venha de onde vier."
Ele: "Tretas! E tu sabes disso... tretas! Há pessoas que te ajudam a viver e outras que te ajudam a morrer. Tens de te decidir entre continuar em frente, voltar para trás, ficar parada ou saltar."
Ela: "Tu falas como se eu pudesse mesmo continuar ou voltar para trás... Quem está com tretas agora?"
Ele: "Devias parar... Andas a queimar-te em demasia. Sem justa causa."
Silêncio
Ela: "O que me prende é imprevisível... o que me guarda é a fragilidade... Foi a prisão que escolhi: Exalta a fúria em nós/rebenta o ser mais calado/querer puxar pela voz/mostrar que está revoltado... !"
Ele: "Sempre falas-te muito bem... És uma poeta. terminás-te o curso?"
Acenei afirmativamente
Sorrio para mim. Um sorriso franco.
Sorrimos os dois.
Ele: "Porquê Lena? Porquê isto tudo?"
Ela: "As coisas acontecem assim e não vale a pena andar à procura de motivos. Já que tou a ir ao fundo, então vou em grande estilo..."
Olhou para mim de lado. Um misto de desprezo, estupefacção e zanga. Faz um gesto agressivo.
Ele: "Tu às vezes mereces mesmo um par de estalos..."
Ri-me
Ela: "Uns cachaços nos olhos..."
Não se rio. Ficou muito sério a fitar-me. Para dentro de mim. Não desviei o olhar. Deixei que ele entrasse dentro das minhas retinas e vasculhasse a minha alma. Deixei que ele me invadisse e procurasse sem cessar que não mentia.
Ele: "Tens tido sorte e tu sabes que tens tido sorte. Tu sabes que tens sorte e brincas com isso."
Ela: "Sorte?!"
Não o fitei nos olhos. Deixei de querer ser invadida e deixei de querer invadir. Um de nós tinha estagnado no tempo. Ou um de nós tinha evoluído na forma de pensar. De ser. Algo estava errado naquela conversa. Eu sabia onde ela ía parar. A partir dali já conhecia o filme. Já conhecia de cor e salteado de tantas vezes rebobinar a cassete. Não fazia sentido insistir.
Quando voltei a encará-lo, ele continuava a olhar-me sério. Como se alguma coisa o incomodasse.
Ele: "Não sei onde estás. Já te conheci melhor... Não tenho a certeza, mas acho que estás sozinha. A vida anda-te a passar ao lado... Põe-te a salvo, é o que te tenho a dizer. Finges que não precisas de ninguém e precisas de toda a gente."
Ela: "Estás a falar de mim ou de ti?"
Já não ouviu, já estava a andar para a frente como se nunca nos tivéssemos encontrado naquele ponto da rua.
"Eu olho-te, espelho e pergunto: De que tens mais medo?
Eu olho-te e tu olhas-me no meu regresso a mim. Tu, mudo, invisível na tua cara pintada de frio, respondes nos meus olhos cegos: de ti"
Faiza Hayat
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