Peço desculpa por escrever devagar como a lentidão de um tempo que passa num relógio cansado e frágil. A memória volta sempre sem que se possa fazer nada para evitá-lo. Os dias antigamente eram todos diferentes. Não tenho vontade de voltar a sitio nenhum. Nem de ficar. Se ao menos eu não pensasse em nada! Acho que dentro de mim deixou de haver alguém. Não sei onde vou encontrar coragem... Não sei se é coragem o que se encontra.
Ele: "Tu às vezes mereces mesmo um par de estalos..."
Ri-me
Ela: "Uns cachaços nos olhos..."
Não se rio. Ficou muito sério a fitar-me. Para dentro de mim. Não desviei o olhar. Deixei que ele entrasse dentro das minhas retinas e vasculhasse a minha alma. Deixei que ele me invadisse e procurasse sem cessar que não mentia.
Ele: "Tiveste sorte e tu sabes que tiveste sorte. Se fosse antigamente... Tu sabes que tiveste sorte e brincas com isso."
Ela: "Sorte?!"
Não o fitei nos olhos. Deixei de querer ser invadida e deixei de querer invadir. Um de nós tinha estagnado no tempo. Ou um de nós tinha evoluído na forma de pensar. De ser. Algo estava errado naquela conversa. Eu sabia onde ela ía parar. A partir dali já conhecia o filme. Já conhecia de cor e salteado de tantas vezes rebobinar a cassete. Não fazia sentido insistir.
Quando voltei a encará-lo, ele continuava a olhar-me sério. Como se alguma coisa o incomodasse. A minha presença, talvez.
Ele: "Não sei onde estás. Já te conheci melhor... 8 anos é muito tempo sem ver/estar com uma pessoa. Não tenho a certeza, mas acho que estás sozinha. A vida anda-te a passar ao lado... Põe-te a salvo, é o que te tenho a dizer. Finges que não precisas de ninguém e precisas de toda a gente."
Ela: "Estás a falar de mim ou de ti?"
Já não ouviu, já estava a andar para a frente como se nunca nos tivéssemos encontrado naquele ponto da rua.
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