O Titanic tem uma enorme capacidade de simbolizar quase tudo no mundo em que vivemos. Imaginemos que o Titanic é mesmo a vida e que representa o homo sapiens que estamos sempre a procurar nos nossos espelhos. Quando afundou, o titanic não levou consigo apenas milhares de vidas, levou também a última nesga de ingenuidade da humanidade. Aquele iceberg não era um iceberg, era um pedregulho enviado por alguém (Ele?) de que nunca estamos seguros, que o nosso futuro enquanto espécie era justamente o de navegar desta forma arrogante e insolente, como se tivéssemos o controlo das nossas vidas, nós que não estamos livres sequer de morrer todos amanhã , quando batermos de frente com aquilo que nos falta de palavra melhor, chamamos de destino.
Quando falamos que a vida é feita de altos e baixos significa que estamos acima da linha de água ou estamos apenas a tentar morrer afogados. No fundo, no fundo, somos todos passageiros de nós mesmos.
Houve em tempos que eu sabia exactamente onde estava os meus botes salva-vidas. Ultimamente, na verdade, por descuido — ou não — soltei-os e perderam-se em alto mar. Intuí que na hora H de pouco ou nada velaram. Porque sabemos que mais tarde ou mais cedo afundaremos.
Imagina um diálogo entre o marinheiro e o capitão do Titanic. Ambos estão deitados no convés do barco a olhar para as estrelas. Há um baile no navio e ouve-se a orquestra ao fundo.
— "Capitão, parece que há um iceberg ali à frente."
— "Fica tranquilo, estamos seguros. Nunca fizemos mal a ninguém, porque raio o iceberg há de chocar connosco?"
— "Mas capitão, parece-me pouco inteligente bater de frente contra um iceberg, mesmo num navio como o nosso."
— "Marujo, tenho pena de si. Falta-lhe a base intelectual. No lugar de ensinarem-lhe a fazer nós, deviam-lhe ter obrigado a ler alguns livros de filosofia. O titanic não é um barco. Nunca foi. Nunca será. Na verdade, eu não sou um capitão nem tu um marinheiro. Não temos passageiros. Isto aqui é a nossa vida. E viver significa justamente ultrapassar os nossos hábitos animais. Quanto mais o Titanic avança, mais deixamos para trás o que já fomos. Não podemos mudar a sua direcção por causa do 1º bocado de água gelada que nos aparece pela frente. Não! Isto seria um pecado. Não temos esse direito. Aliás, o iceberg é uma ilusão. Ele não existe. O que vês é uma realidade sordidamente preparada para assustar pequenas almas como a tua. Só o vê quem deseja vê-lo. Eu, por exemplo, sou um homem determinado, não vejo nada. Vamos continuar tranquilamente a nossa viagem. Acredita em mim, marujo. Eu, que represento nesta fábula o papel da consciência colectiva de todos os que me seguem, afirmo peremptoriamente que nada vai acontecer. Se estivesse enganado, seria a 1ª vez."
— "Pode ser capitão, pode ser. Mas aquilo parece cada vez mais um iceberg. Ó capitão, não fique ofendido, mas será que só a nível de debate não poderíamos encarar a hipótese de que aquele iceberg, apesar de não passar de uma ilusão óptica, pode bater contra o Titanic... não, contra a nossa vida, provocando um desastre infinito?"
— "É uma possibilidade. Mas se isso acontecer, algumas pessoas de quem gostamos muito íam morrer e isso é triste. Talvez nós mesmos acabássemos congelados nestas águas. Viraríamos comida para os tubarões. Bem, pelo menos a nossa desgraça não seria inútil. Sempre nos resta dar um sentido maior a tudo isto."
— "Qual?! Alertar a vida das pessoas sobre os desígnios e a efemeridade da vida?"
— "Não, poderíamos vender a nossa história."
E a orquestra continua a ouvir-se ao fundo. Essa mesma My heart will go on
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