
Numa entrevista à revista "Notícias Sábado" feita pelo jornalista Nuno Azinheira, a 18 de Outubro de 2008, o "sempre jovem" ACTOR revelou-se!
«Notícias Sábado (NS): Há muitos colegas seus a dizer que gostariam de morrer em palco. Uma ideia de romantismo associada à morte?...
Raul Solnado (RS): Eu quero morrer numa cama. É muito mais confortável... (risos)
NS: É um homem feliz neste mundo?
RS: Sei lá... Ninguém pode dizer que é completamente feliz. Sou um... não-infeliz. E olhe que é uma coisa do caraças... (risos).
NS: É impossível ser feliz? A felicidade é inatingível? Não me diga isso, que ainda sou novo...
RS: (risos) Não. A felicidade é pontual. É de momentos. É impossível ser feliz sempre. Só um tonto. Só um tonto pode ser feliz sempre.
NS: Porquê?
RS: Porque não pensa em tudo. Como é que a gente pode ser feliz com tudo o que nos rodeia, com os problemas que há no dia-a-dia? São problemas que se vão acumulando. Um tonto anda todo contente, não pensa em nada disso.
NS: Como é a sua relação com Deus?
RS: Sou profundamente religioso mas não sou católico. Não quero que ninguém intervenha entre mim e Deus. A minha vida sou eu quem a define.
NS: Mas é um Deus justo?
RS: Não, não, que ideia! Não há nenhum Deus justo. Eles também não podem fazer assim a justiça do mundo. Se bem que cada um dos nove mil milhões de deuses trate do seu cidadão. Mas não se iluda: também para eles isto anda complicado (risos).
NS: Sempre pensou em ser actor?
RS: A minha vida foi sempre um bocadinho confusa em termos de definições. Não sabia o que queria ser. Ser actor era um desejo, sim, mas era uma coisa vaga. Como era uma coisa vaga querer ser médico. Eu queria ser médico porque era um apaixonado pelo meu médico, o dr. Assunção, da Madragoa.
NS: Apaixonado?
RS: Sim. Quando ele ia a minha casa, tinha eu dois, três anos, as mãos dele, a sua respiração, a voz e o sorriso deixavam-me louco de paixão. Tinha uma paixão louca por aquele homem. Queria ficar doente para que ele fosse lá a casa (risos).
NS: Mas queria ir para a escola?
RS: Era assim: o meu pai tinha uma casa de vassouras e escovas de aço. Eu queria ir para o liceu, naturalmente. Tinha um projecto e sabia que o liceu era importante. Mas naquela altura os pais achavam que os meninos não tinham quereres. E, como o menino não tinha querer, fui para uma escola comercial. Mas consegui não acabar o curso (risos).
NS: E foi um desgosto para ele...
RS: Foi um grande desgosto, sim. Mas foi o meu grito de Ipiranga. Encostei os pés à parede e disse que não queria. Depois pôs-me numa loja de ferragens de um sócio dele. Uma coisa abominável. Mas já ganhava dinheiro. Tinha 16 anos.
NS: Cinco anos depois, dá-se a sua estreia profissional, no Maxime...
RS: Sim, foi uma peça do José Viana, chamada 'Sol da Meia-Noite', que revolucionou a noite na cidade. Os espectáculos de cabaret até aí eram todos feitos por espanholas e eram coisas muito básicas. Ele fez uma coisa orgânica, um espectáculo montado com pequenos cenários, com actores. Foi um grande sucesso. Tive muita sorte porque correu muito bem. Um dia, o Vasco Morgado, que era um grande senhor do teatro português, foi ver a peça e no final convidou-me para fazer uma revista no mês seguinte. Disse-lhe: 'Olhe, vou pensar, mas digo-lhe já que sim.' (risos)
NS: Tinha 22 anos na altura e depois a sua carreira é o que se sabe. Já fez de tudo: opereta, teatro mais clássico, revista, cinema, televisão. O que lhe falta fazer?
RS: Falta-me descansar.
NS: É isso que lhe apetece?
RS: Sim, muito, muito. Apetece-me estar quieto. A minha vida sempre foi muita revolta, muito adoidada. Mas saborosíssima. Mas foi tudo muito duro. Trabalhávamos em duas sessões diárias sempre. Hoje isso é impensável, mas foram 17 anos sem descanso semanal. Passei décadas da minha vida sem férias. Foi muito duro. Agora quero viver.
NS: De tudo o que fez, há coisas que não se esquecem, que são a sua marca de água. Estou a lembrar-me da rábula da Guerra, que pôs um país sombrio a rir de si durante a guerra colonial. Surpreende-se quando ouve, ainda hoje, referências a expressões suas como 'Podió chamá-lo', ou 'voluntário à força'?
RS: Não me surpreende, mas fico muito vaidoso, orgulhoso, contente.
NS: É um homem vaidoso?
RS: Todos os actores são vaidosos, senão não eram actores. Nós vivemos da exposição em cima de um palco. E recebemos os agradecimentos de um público, as palmas. Isso torna-nos vaidosos.
NS: O texto da Guerra é de origem espanhola e foi para si, tanto quanto sei, paixão à primeira vista. Ouviu-o e trouxe-o para Portugal sem saber se os portugueses iriam achar graça...
RS: Sim, naquela altura não havia 'Produções Fictícias' (risos). Fazíamos tudo a pulso. Um dia fui a Espanha, vi uma actuação do Miguel Gila e disse para mim que era aquilo que queria fazer em Portugal. Este é que é o meu humor. E comprei-lhe o texto.
NS: Impressionante foi também o facto de ter conseguido que o texto passasse entre os pingos de chuva da censura...
RS: Isso é que foi uma proeza! Eles eram espertos mas não eram muito inteligentes. Foi o Nélson de Barros, jornalista, um grande autor, quem sugeriu que mandássemos a Guerra como sendo uma fala do Cantiflas. E eu disse aquilo tão rápido, tão rápido, que ninguém percebeu. Nem eu (risos). E foi assim que passou na censura visual o texto da Guerra.
NS: O Raul está afastado da televisão há mais de dez anos. Foi a televisão que se esqueceu de si ou foi o Raul que quis esquecer-se da televisão?
RS: A televisão sempre se esqueceu de mim. A RTP nunca se lembrou de mim. Fui sempre eu que apresentei as minhas propostas. A RTP nunca me telefonou para me convidar a fazer um programa. Nunca.
NS: É uma mágoa que sente?
RS: Sim, é uma mágoa. Não sei porque razão, se é por razões políticas, se por outras. Mas continua.
NS: Acha que actualmente na televisão portuguesa, num contexto competitivo como existe, há espaço para si?
RS: Não faço ideia. É mais fácil ser você a responder do que eu. Na televisão em Portugal é tudo descartável.
NS: O Raul já fez novelas...
RS: Fiz quatro. A Banqueira do Povo foi da que gostei mais, com a Eunice Muñoz. O que mais gosto de fazer é teatro, depois cinema. A televisão vem no fim. É uma indústria pesada. Não há tempo para preparações. Só se pensa na audiência, seja que audiência for. Mas é preciso dizer que os actores portugueses representam muito bem. As novelas melhoraram muito.
NS: O teatro surge, portanto, à cabeça. Sente saudades dos palcos, das palmas?
RS: Muitas, muitas (sorriso). As palmas são... (pausa) fabulosas. É muito bonito, muito bonito. É a felicidade recompensada.
NS: Em Março foi homenageado na reabertura do Teatro Villaret, cuja sala passou a ter o seu nome. Sentiu-se sensibilizado com o gesto, ainda por cima numa casa que foi sua e que quase o levou à falência?
RS: Muito, muito sensibilizado. Para já, o teatro está muito bonito e em boas mãos (o Teatro Nacional). E depois tive lá a minha família e amigos. Foi muito importante.
NS: Mas continua a ser socialista, o que quer que isso seja.
RS: (risos) Continuo a ser simpatizante. Você dizia que eu sou um tipo de esquerda, não era?
NS: E não é?
RS: (risos) Bem, concordei consigo, mas acontece que isto agora está tudo confundido. Já não sei bem o que é a esquerda e a direita.
NS: Faz sentido essa distinção ainda?
RS: Sei lá. Para mim o que faz sentido é saber se você tem bom carácter ou mau carácter. Esquerda ou direita? Isso está cada vez mais esbatido. Gosta muito de pobrezinhos? Não, detesto pobrezinhos. Ah, então é de direita... (risos) Não faz sentido.
Até breve!
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