Eles seguem-me, mas eu não faço puto de ideia para onde estou a ir...

quinta-feira, 16 de julho de 2009

A vida é como os interruptores

Passei a noite a tentar definir o que penso da vida e a voda o Herman José já tinha inventado a definição mais exacta: "A vida é como os interruptores". E está tudo dito. No fundo é mesmo assim, nessa alternância de estados, de ciclos, de degraus que chegamos a algum lado.

Aparentemente, os interruptores dão-nos a possibilidade de controlar em absoluto os períodos iluminados e os de escuridão mas na prática, só quem não andou por um corredor às escuras de uma casa desconhecida à procura do interruptor é que pensa que a coisa é tão simples. Ou quem nunca carregou com força para baixo antes de descobrir que o interruptor estava aparafusado ao contrário. Ou que simplesmente a lâmpada estava fundida ou que faltava a electricidade. Ou então, deu de caras com uma daquelas de rosca molda que andam à volta e à volta sem darem o clique que se espera deles.

Há uns meses que me sinto a luz alaranjada dos fins de tarde, em que olhamos o pôr de sol com um leve aperto na garganta: é tão bonito e no entanto tão triste. Sabemos que de certeza, ou quase de certeza, o sol amanhã vai-se levantar, mas sabemos, entretanto, que não temos forma de escapar à noite.

Tenho saudades daqueles tempos em que o interruptor estava para cima, andava semi-eufórica e ninguém me conseguia contagiar com a tristeza e pessimismos. Tapava os ouvidos com força e recusava-me a deixar que os outros me estragassem a visão cor de rosa que tinha do mundo. Não via telejornais e saltava em cima das páginas e histórias de crimes e misérias. E, como esperava o melhor das pessoas e das coisas elas tinham tendência a realizar-nos as expectativas e a onda ía crescendo.

Se gostam de fazer puzzles íam perceber melhor o que escrevo. Sabem que quando já falta poucas peças e depois todas começam a encaixar a um ritmo sucessivamente mais acelarado, até ao instante em que a última encontra o seu lugar? Nessa altura a obra fica completa. Observamo-la com orgulho e deixamo-la em cima da mesa, incapaz de pensar ainda, no momento em que será preciso desmanchar o feito e guardar tudo novamente na caixa. É quando a guardamos na caixa que começa o interruptor a ir para baixo, a luz alaranjada do final de tarde... Temos plena consciência que o melhor é já tratar do assunto porque amanhã queremos voltar a comer à mesa que foi selvaticamente ocupada há meses. Mas, mesmo assim, não temos a coragem de atentar contra a nossa prórpia obra.
Preferimos esperar. Esperar até que alguém dê um encontrão e um lado se desfaça. Por outras palavras, que alguém tome a decisão por nós. No fundo, no fundo, desejamos que aquele puzzle ali fique, que se mantenha como bandeira do nosso êxito, até ao dia em que o entusiasmo de fazer um outro, nos leve a um só impulso, arranjemos espaço para reiniciar o processo.

Acho que quando somos míudos não temos grande consciência de nada disto. Julgamos que a vida é um puzzle e estamos tão absorvidos a procurar a peça que encaixa naquela outra, que perdemos de vista o passado e não temos olhos para o futuro. Por isso as crianças são felizes.

Voltemos aos interruptores. Quero voltar a colocá-los em posição de dar luz, cheia de medo de ser novamente obrigada a andar pela casa a tactear para a encontrar. Se, de caminho, esfolo a parede, pintada com aquela tinta de areia, fico furiosa e recuso com raiva e determinação que me digam que o tempo há de acabar por curar a ferida.

Quando era míuda, tinha a esperança de nunca ter de dormir às escuras, chorava desamaldamente se não me deixassem pelo menos uma luz de presença ou, na pior das hipóteses, a do corredor, com a porta entreaberta. Custa um bocado descobrir que não é assim. Que ninguém escapa à luz alaranjada no horizonte e a certeza que não há forma de contornar a noite. Mas com a idade, ficamos mais confiantes e, paradoxalmente, mais cépticos também. Mais confiantes porque acreditamos que vamos ser capazes de fazer outros puzzles, provavelmente maiores e mais complicados; mas que também nos vão dar ainda mais gozo. E mais cepticos porque já somos capazes de fazer um sorriso meio de esguelha e pensar: se não for aquele das mil e quinhentas peças, será o das mil e duzentas. Olha é da maneira que chegamos ao fim mais depressa e podemos começar outro!

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