Eles seguem-me, mas eu não faço puto de ideia para onde estou a ir...

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Jardins do Palácio!!!

Conforme foi anunciado com toda a pompa e circunstância, o Pavilhão Rosa Mota, no Porto, vai entrar em obras no final do próximo ano. A requalificação custará 18,5 milhões de euros e deverá estar concluída no último trimestre de 2011 em mais uma parceria publico-privada do
executivo de Rui Rio.

O projecto de reabilitação, inclui "áreas de expansão em cave com frente para a Avenida das Tílias, um novo restaurante e uma nova sala para cerca de 1200 lugares, além de áreas técnicas indispensáveis", descreveu, o arquitecto José Carlos Loureiro, durante a apresentação da requalificação do espaço.

Curiosamente, este arquitecto é o mesmo que ficará para sempre ligado à destruição do Palácio de Cristal, uma vez que é o autor do actual pavilhão que substituiu o magnífico edifício cruelmente demolido...

Agora José Carlos Loureiro quer construir um grande edifício e um "espelho de água" na zona da actual esplanada/lago dos jardins do Palácio, SEM DERRUBAR NENHUMA ÁRVORE! Arrisca-se a entrar para o Guiness com tal proeza!

Quem estraga a alegria, esse bem tão escasso, merece denúncia pública vigorosa. Desde que a gestão do Palácio de Cristal foi retirada à Porto Lazer e entregue ao Pelouro do Ambiente da Câmara, as melhorias têm sido evidentes. Não se repetiram as podas desastrosas na Avenida das Tílias muitos novos arbustos e árvores têm sido plantados (magnólias, extremosas, tílias, camélias, criptomérias, freixos, cedros), e é visível que os novos responsáveis têm ideias sobre jardinagem que vão além da substituição das flores sazonais e do corte periódico da relva.
O recém-estreado Jardim das Cidades Geminadas é a melhor prova da criatividade e empenho desta nova gestão dos jardins dos Palácio.

E não é justamente agora, no início de tão promissora nova vida do recinto, que um projecto impensável, sob a capa da inevitável/requalificação/, ameaça ferir de morte os jardins do Palácio? Em 1951,o arquitecto José Carlos Loureiro foi o projectista da /bolha/ que veio
substituir o genuíno Palácio de Cristal, datado de 1865. Inaugurado em 1956, o Pavilhão dos Desportos (mais tarde chamado Pavilhão Rosa Mota) consumou um atentado ao património de que a cidade nunca se recompôs. É certo que o Porto se habituou ao edifício, e hoje já o tolera; mas seria abusivo dizer que gosta dele. O jardim teve meio século para recuperar da afronta, e as árvores que entretanto cresceram em torno do lago (também refeito por essa altura) formam uma cortina que quase enobrece o edifício que deixam entrever.

Preocupada com o escasso uso que o Pavilhão Rosa Mota tem tido, a Câmara do Porto resolveu chamar novamente José Carlos Loureiro para remodelar o edifício. As obras previstas, orçamentadas em 18,5 milhões de euros, são financiadas pelo Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN) e deverão decorrer de 2010 a 2011. Se se tratasse unicamente de modernizar
o pavilhão, adaptando-o a novos usos, nada haveria a obstar ao projecto; mas a vaidade de um arquitecto, quando deixada à solta, tem consequências terríveis. A pretexto de se modernizar o antigo, acrescenta-se-lhe um edifício novinho em folha que vai destruir o lago («não passa de um charco», segundo o arquitecto, e será substituído por limpidíssmo e geométrico «espelho de água») e ocasionar uma razia insana no arvoredo.

O edifício terrorista justifica-se pela necessidade de auditórios para congressos, que - espera a Câmara - vão acorrer de todo o mundo ao Porto e ao Palácio logo que o renovado complexo esteja pronto. E o vasto auditório da Biblioteca Almeida Garrett, a cinquenta metros de distância, quase sempre desocupado, não serve para nada? Quem vai a um jardim como este quer encontrar árvores, pássaros, vida; prefere infinitamente ver patos a nadar num lago sombreado por vegetação a um estéril «espelho de água» sufocado por edifícios.

Durante a apresentação do projecto, feita a 17 de Junho em cerimónia no Pavilhão Rosa Mota, foram muitas as juras de amor e carinho pelo jardim, misturadas com incoerências várias que os jornalistas reproduziram com a ingenuidade habitual. Que «a intervenção será realizada com um respeito muito grande pela área envolvente, nomeadamente pelo jardim do Palácio de Cristal, com particular cuidado com as árvores classificadas e de
grande interesse pelo porte ou espécie»
. Leio isto e fico tão tranquila como se me dissessem que, tendo o canil camarário capturado um bando de gatos vadios num quintal, se comprometia a tratá-los com o maior carinho, nomeadamente não abatendo animais protegidos ou de grande porte. Ficava ciente de que não seria abatido nem um só lince da Malcata ou tigre da Malásia; mas ficava também a saber que, dos felinos capturados, nenhum sairia dali vivo. (Não há árvores classificadas nos jardins do Palácio; nenhuma das árvores em risco é rara ou tem porte especialmente notável, pois todas datam da época em que a bolha foi construída ou são mesmo posteriores.) Para compor o ramalhete de declarações absurdas, a notícia no JN1 termina com: «certo é que/ [nas palavras do arquitecto] "o novo equipamento não vai deitar abaixo nenhuma árvore"». Quer isto dizer que o edifício vai ser flutuante, pairando acima da copa das árvores, sustentado talvez por balões de hélio ou hidrogénio? E, se nenhuma
árvore vai abaixo, para quê ressalvar as (inexistentes) árvores classificadas, raras ou de grande porte?

José Carlos Loureiro arrisca-se a ficar na história do Porto como o homem que destruiu o Palácio de Cristal duas vezes: a primeira, há mais de meio século, por encomenda; a segunda, hoje, por simples vaidade. Vaidade que os poderes públicos incitam, permitindo aos arquitectos
adulterar a seu gosto, em prejuízo de quem nela vive, a cidade que deveria ser de todos.

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