A alma é uma coisa estranha. É intermitente, estilo semáforos no amarelo. Há alturas em que nos abandona completamente e não a conseguimos encontrar. às vezes, só por umas horas, outras por mais tempo. Procuramos, procuramos, mas não aparece. Nem quando a chamamos aos berros, nem quando lhe falamos docemente. Evapora-se.
Pressentimos que se nos olharem bem nos olhos, talvez consigam descobrir que ela não está lá. Mas, à parte esse permenor, falamos da mesma maneira, rimo-nos da mesma maneira e ninguém dá por nada.
Só que quando ela se esconde, sei lá, não sentimos as coisas. Vêmo-las como num filme, emitimos juizos sobre elas, damos opinião, mas não nos provocam aquele calor cá dentro, nem sequer o frio, que habitualmente os acontecimentos muito bons ou muito maus nos causam. Ía dizer que ficamos apáticos, mas acho que não é bem isso.
A verdade é que se temos problemas urgentes a resolver mais vale que o nosso cérebro trabalhe a todo o vapor e não se deixe atrapalhar por lágrimas inuteis ou choradinhos que não levam a lado nenhum. Arrumamos a alma onde ela não atrapalhe e atiramo-nos para a frente, no fundo com o instinto de auto-defesa muito aguçado. Só assim conseguimos, sem deixar que a pena, o sofrimentos dos outros, nos atrapalhem, fazer as coisas dificies que temos para fazer, desde dizer umas verdades ao tipo que tá sempre a fazer merda e fica à espera que os amigos estejam lá por ele em bom nome da amizade.
Estranhamente, também pode ser pelas razões inversas, enquanto temos de enfrentar realidades que nos fazem sofrer mais do que julgamos ser possível, como por exemplo, alguém tenta se matar à nossa beira e não conseguimos agarrá-lo à vida. Aí somos obrigados a "isolar os factos" como descobri que chamam a este fenómeno os psquiatras, exactamente para não reagirmos tão emotivamente às agressões de que somos alvo, evitando assim saltar de um precipicio ou cortar a cabeça a quem nos ataca. Queremos a todo o custo mantermo-nos justos, equilibrados, sem perdermos ocontrole do que dizemos ou fazemos, e então aí, para não sermos engolidos pelas emoções que sentiriamos se não estivessemos anestesiados, entramos em piloto automático. Pelo menos até julgarmos que é seguro voltar a sentir.
Simultaneamente, parece que as memórias também se perderam. Não conseguimos ir buscá-las, com facilidade, como se o arquivo estivesse fechado à chave. Surgem, de vez em quando fragmentos, imagns, mas deslocadas e em mau estado, um pouco como se o que estivesse disponivel fossem apenas aquelas fotografias piores que guardamos numa caixa velha de sapatos porque não são suficientemente boas para irem para o álbum.
Às vezes irrita. E mete medo. Apetece que nos belisquem cá dentro para termos a certeza que ainda somos capazes de sentir com força, mesmo que seja dor. Temos momentos de pânico em que julgamos que perdemos a alma de vez, mas depois, de repente, dá-nos um flash de optimismo e temos a certeza: Não, ela volta! Uma boa filha regressa sempre a casa!
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