Talvez se eu escutasse o silêncio mais do que as vozes e meditasse nas mentiras colectivas que há tanto nos servem de mania, os dias corressem menos depressa.
Talvez se eu me resignasse, soubesse ser indiferente, não ardesse no sentido de responsabilidade por estar aqui e agora e aprendesse a navegar no mar tranquilo da indiferença pelo que na terra acontece, no meu país e na minha aldeia que dá pelo nome de cidade também acontece, talvez assim eu voltasse a recuperar os mitos, alguns, e a perceber que os pés de barro, de outros, são frágeis e de nada servem.
Mas não. Tenho aprendido pouco. Tenho-me adaptado pouquissimo - alguma vez me adaptei?! - resignado ainda menos. Esbracejo sempre em grandes e inuteis comicios da alma. Rio-me de mim própria, jamais me tomo muito a sério e envio imediatos avisos de navegação a quem por ternura ou logro, me deseja enfeitar com lantejoulas os passaportes que utilizo nas viagens à alma.
Não é grande quem quer, mas quem pode; não é nobre quem se apregoa, mas quem nasce e se esforça para ser; não é humilde quem deseja, mas quem tem a grandeza da alma para aceitar a humildade que dignifica e é exemplo. Por isso não me deixo enganar por gente arrogante cuja dimensão do mundo termina onde começa o seu umbigo. É nestes pequenos gestos, nesta inveja da alma, neste não sber entender as derrotas que se revela o carácter, se perde a máscara, o barco em que se julgavam timoneiros perpétuos.
Afinal, mesmo sem deuses de sabedoria, sem temor às ameaças de diluvios, a minha nau está aí, flutuando em mar de calmaria, sem medo dos papões.
Sem comentários:
Enviar um comentário
Sweet messages