O meu telefone é como uma sirene particular. Toca. Chama. Geme. Umas vezes tem medo e não toca. Outras, alarma até se atender.Não são telefonemas. São suspiros, pedidos calados de ajuda. Soam diariamente às dezenas de milhar. Só precisam de chamar. Não falam. Calam. Ouvem. Apenas.
Telefona-me todos os dias de madrugada. Quando eu atendo, desliga. Não preciso de falar. Eu sei quem é. Fica em silêncio. Horas e horas durante a noite.
Vou-me deitar com saudades de um tempo que já não volta. A maior parte das vezes não tenho nada para dizer. Oiço-o a respirar. Às vezes a chorar. Quando demoro mais tempo, quando a dor é maior, ele diz o meu nome. Devagar.
Eu desligo. Volto a dormir.
Eu atendo sem falar. Espero que ele diga o meu nome. Se a voz é triste, respondo. Digo o nome dele. E desligo. É a voz dele em eco. São os meus olhos transbordados d’água. São sonhos à luz de vela.
São… chamadas.
Fico acordada. Arrependo-me de ter falado. Mais uma vez. Mais um comprimido para dormir, e estou zonza de sono. Telefona-me mais uma vez, e chama por mim. E desligo antes de ele me responder.
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