Eles seguem-me, mas eu não faço puto de ideia para onde estou a ir...

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Adeus adiado

Frente a frente. Eu e ele pareciam não ter nada a dizer, ou talvez tivessem tanto que era difícil saber onde começar. Ele olhou para o céu. Ela olhava-o com saudade do que ele foi e já não é.

Ele: Adoro esses teus olhos. São da cor do mar agitado, meio cinzentos, meio castanhos. Toda a gente repara neles. Os olhos densos, profundos, bonitos.

Sem dar conta, o que mais precisava e queria era o que agora afastava: a presença, o afecto, o amor. Algum silêncio e depois a pergunta fatal rasgada, a voz muito seca.

Ele: Posso voltar?

Ela não respndeu. Ele insistiu, engolindo a custo na garganta seca.

Ele: Um dia destes...

Ela: Podes tentar...


Uma melodia vinda não se sabe de onde chegava ao pé deles "we're alone. we're all alone".

A voz enrouquecida pelo tabaco era profunda, doce, e o olhar muito intenso, de quem se habituou a ler o mundo por ele.

Ele: És especial

Ela: Eu sei... — ri-se.

Ele: Conheci-te nesse terbulhão de idéias feitas. Muita coisa mudou. Bem, outras não... Sabes? Bati muito fundo, grandes desilusões.

Ela: Que desilusões?

Ele: Coisas que nunca te conseguirei contar. Nem a ti, nem a ninguém. Um dia, quem sabe, vais poder perceber. Foi difícil, ainda é, mas estou a tentar aguentar-me. Talvez não seja impossível manter-me à tona da água.

Ela: Nada é impossível. As coisas acontecem se nós quisermos.

Ele: Há coisas do passado que não se podem trazer de volta. Como o rio quando vai para o mar, a mesma água nunca volta.


Ela: Eu sei, o passado dói sempre. O que estás a pensar fazer da vida? Impossíveis?

Ele: Sei lá! Para já não sei.
O passado tem longos abraços e afiadas garras, capazes de deixar cicatrizes profundas. Como é que se lida com a memória e com o tempo?

Durante muito tempo ela não conseguia dormir. Tinha receio de ter os mesmos sonhos, de regressar a tempos antigos.

Ele: Às vezes acho que não amas ninguém, mas gostas de me ter por perto, para colmatar a tua solidão.

Para ela estas palavras eram urtigas a picarem na pele, tal e qual como, há uns anos atrás, as sentiu pela primeira vez com F... Ela olhou para ele. Ele tinha os olhos fixos no mar. Estava com o boné de pala que servia de sombra para quando não queria mostrar os olhos.

Ele: Não acreditas mesmo nisto do amor, pois não?

Ela: No amor?

Ele: Aquele sentimento de quando a gente gosta de alguém, que esse alguém nos vai amar, que a pessoa é verdadeira, que não é fingida, que vai gostar de nós, como somos, assim, para sempre.

Ela não responde. Faz-se silêncio entre eles. Então com a naturalidade de quem conhece, ele começou a enrolar um charro.

Ele: Vai um bafo?

Ela: Não.

Ele: O tabaco faz pior. Não gostas de Bob Marley?

Ela riu-se. Ele deu mais um bafo e passou-o a ela, que o olhou. Ela deu um bafo pequenino, fazendo lembrar outros tempos. Há cheiros que nos fazem ir a outros locais. Dar um bafo era como estar novamente naquele sítio com aquelas pessoas.

Ele: E se tu não gostas mesmo de mim? E se tudo não passa duma mentira? E se fores falsa como as outras?

Ela olhou-o num largo silêncio. Estava a ver esta conversa a ir-se num caminho sem regresso, sem beijos e abraços.

Ele: Olha agora — e aponta para o céu — a cor do céu.

O céu estava laranja rosado. O sol punha-se para lá do horizonte.

Ele: Se tu um dia morresses, eu morreria logo também.

Ela: Matavas-te?

Ele: Hum hum.

Fez-se mais um silêncio longo. Permanecemos deitados na areia quietos, lado a lado. Ele com as mãos atrás da nuca, ela com as pernas cruzadas, esticadas. Passado algum tempo, quase instintivamente, levantaram-se os dois ao mesmo tempo e começaram a caminhar à beira-mar. O sol estava a pôr-se, definitivamente.

Ele: A água está fria.

Ela: Aqui está sempre.

Ele: Vê-se os pés.

Ela: Se calhar é melhor acabarmos de vez. Para sempre

Ele olhou-a numa zanga de choro mudo.

Ele: Eu vou. Enganei-me contigo. Pensava que não eras como as outras. Agora já não sei...

Ele sobe a praia até ao paredão. Limpara as lágrimas. Os lábios estavam tão mordidos que deitava sangue. Ela, passado um bocado sobe a praia e quando se preparava para calçar os ténis, lá estava ele, sentado no chão, com os braços à volta das pernas, cabeça tombada entre os joelhos. Também para ela era uma visão terrível que a deixava inquieta, vazia. Ela aproximou-se dele e senta-se a seu lado.

Ela: A vida é como um rio. Não se sabe onde começa. Depois cresce, cresce e segue sempre mesmo quando é apertado nas margens. Mas ele segue e vai ter ao mar. Abre-se todo. É a liberdade.

Ele: O nosso rio não era especial? Intenso? — questionou-a, olhando nos olhos.

Ela beijou-o com força. Como na primeira vez. Com a força da vida toda. De um reencontro. Dois corpos num só reencontro. Adiado.

Ela: Sophia Mello Breyner dizia que não se volta a sítios onde já fomos felizes. Para não estragar as memórias.

Ele: E depois de morrer, queria voltar para viver os instantes que não viveu junto ao mar.

Ela olhou-o com espanto. Sorriu. Normalmente ele não sabia destas coisas. Ela estava mesmo convencida que ele só lia jornais desportivos e revistas de carros.

Ele: De qualquer maneira isso são tretas. Já voltámos a sítios onde fomos felizes e fomos felizes.

Ela: És feliz?

Ele: Contigo posso ser.

Ele pôs as mãos nos bolsos e tirou de lá um búzio partido numa das pontas e ofereceu-a. Ela deu-lhe mais um abraço. Ele não percebia por que ela tinha dado tudo e depois tirado tudo.

Ela beijou-o. A partir desse instante ela sabia que seria preciso muito pouco para voltar a seguir por caminhos onde tinha jurado não voltar.

Silêncio outra vez entre os dois.

Ela: Pesa os dois lados. Mede bem e vê qual queres que ganhe. Só conseguirás isso com a minha ausência.

Ele: Ajudas-me? Preciso do teu coração.

Impertubável ela respondeu:

Ela: Posso dar-te toda a minha vida. E é do coração. Mas a esperança, a fé, a vontade de vencer os teus fantasmas tem de vir de ti!

Ele não consegiu conter um sorriso, o maior que alguma vez se lhe vira.

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