Angústia. Guerra. Paz. Dormir. Não estar. Como morta. Morrer? Não, claro que não…
Esperar. Vigiar. Aguentar. Saber partir. Mas, acima de tudo saber voltar. Quem me adivinharia com pânicos, pavores, o medo do mundo? Uma pessoa ou se abandona ou está perdida. Eu abandonei-me… Já não tenho medo de nada. Por isso é que fujo. Um vazio de inércia. Uma espécie de nostalgia, nem triste, nem alegre. Um amor livre. Juntos, cada um por si com o outro. Mas vocês não sabem o que pesa a repetição dos dias.
Voltar viva, sempre. Um dia, envelhecer. Mais nada. Não!… sobreviver. Sonhar a luz. Quiseram-me proteger do barulho do mundo. Conseguiram. Construíram perfeitamente o silêncio à minha volta. Talvez pensem que eu esteja feliz, lá onde me refugio. Na vida de todos os dias. Não sou eu mesma. Sou do reino do “se”: “vive-se”, “trabalha-se”, “é-se”. Não se é de ninguém. Esse tempo perdi-o. Não sou uma mulher de quem se pode estar à espera sem se sofrer. Eu estou aí… ou não estou aí… Surjo. Não, ninguém está à espera de nada.
Não ceder. Fintar… Ficar por terra. Mentir. Enganar. Sei que me vais apanhar. Quando me apanhares, perco-me. Mas volto sempre. Só eu conheço as minhas horas de liberdade. Aguentar! Resistir! Não ceder! Arriscar, assumir os riscos. Arriscar tudo por tudo sem sequer o saber. Aguentar, não ceder. “Eu quis assim”. Evitar a ruptura. Agarrar-me com força ao fio da minha vida. Preencher uma ausência que não apaga nada. Que quis eu exactamente? Ninguém escapa ao sonho quando o sonho traz esperança. Mas essa esperança perturba-me. Apercebo-me que o medo vem de mim própria.
Não quero dormir. Não ceder. Olhos abertos. Não, não fechar os olhos! Oh! Sem forças… vencida…
Indiferença. Banalidade. Isso é que mata! Estou calma. Já não tenho medo de nada. Feliz, deixo-me viver. Em situações bizarras como eu vivo, perdemos a faculdade de julgar. Compreende-se a banalidade do mal. Ficamos vazios até de lágrimas. Parecemos pedra, fria e batida pela chuva. Sabemos que a dor nos vai atingir. Quando chegamos a casa à noite, pela manhã, já, ou mais daqui a bocado. Há muito que deixei de acreditar em Deus.
Gostaria de gritar... O que nos leva a pensar que sabemos o caminho de casa? Com quantas certezas se faz um salto mortal? Não vou a lado algum… Passo. Não quero ver os sinais de perigo. Fujo. Perco-me. Num labirinto estreito. Sem encontrar a saída. Aliás, sem a querer encontrar.
Nota de rodapé: “Helena caiu do precipício à beira do qual dançava havia algum tempo. Sem nunca dar explicações. Helena escolhera a loucura. Mas apesar de possuir um espírito perturbado característico do séc. XIX, Helena não estava louca — infelizmente”.
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