Frente a frente. Eu e ele pareciam não ter nada a dizer, ou talvez tivessem tanto que era difícil saber onde começar. Ele olhou para o céu. Ela olhava-o com saudade do que ele foi e já não é.
Ele:
Adoro esses teus olhos. São da cor do mar agitado, meio cinzentos, meio castanhos. Toda a gente repara neles. Os olhos densos, profundos, bonitos.Sem dar conta, o que mais precisava e queria era o que agora afastava: a presença, o afecto, o amor. Algum silêncio e depois a pergunta fatal rasgada, a voz muito seca.
Ele:
Posso voltar?Ela não respndeu. Ele insistiu, engolindo a custo na garganta seca.
Ele:
Um dia destes...Ela:
Podes tentar...
Uma melodia vinda não se sabe de onde chegava ao pé deles "
we're alone. we're all alone".
A voz enrouquecida pelo tabaco era profunda, doce, e o olhar muito intenso, de quem se habituou a ler o mundo por ele.
Ele:
És especialEla:
Eu sei... — ri-se.
Ele:
Conheci-te nesse terbulhão de idéias feitas. Muita coisa mudou. Bem, outras não... Sabes? Bati muito fundo, grandes desilusões.Ela:
Que desilusões?Ele:
Coisas que nunca te conseguirei contar. Nem a ti, nem a ninguém. Um dia, quem sabe, vais poder perceber. Foi difícil, ainda é, mas estou a tentar aguentar-me. Talvez não seja impossível manter-me à tona da água.Ela:
Nada é impossível. As coisas acontecem se nós quisermos.Ele:
Há coisas do passado que não se podem trazer de volta. Como o rio quando vai para o mar, a mesma água nunca volta.
Ela:
Eu sei, o passado dói sempre. O que estás a pensar fazer da vida? Impossíveis?Ele:
Sei lá! Para já não sei. O passado tem longos abraços e afiadas garras, capazes de deixar cicatrizes profundas. Como é que se lida com a memória e com o tempo?Durante muito tempo ela não conseguia dormir. Tinha receio de ter os mesmos sonhos, de regressar a tempos antigos.
Ele:
Às vezes acho que não amas ninguém, mas gostas de me ter por perto, para colmatar a tua solidão.Para ela estas palavras eram urtigas a picarem na pele, tal e qual como, há uns anos atrás, as sentiu pela primeira vez com F... Ela olhou para ele. Ele tinha os olhos fixos no mar. Estava com o boné de pala que servia de sombra para quando não queria mostrar os olhos.
Ele:
Não acreditas mesmo nisto do amor, pois não?Ela:
No amor?Ele:
Aquele sentimento de quando a gente gosta de alguém, que esse alguém nos vai amar, que a pessoa é verdadeira, que não é fingida, que vai gostar de nós, como somos, assim, para sempre.Ela não responde. Faz-se silêncio entre eles. Então com a naturalidade de quem conhece, ele começou a enrolar um charro.
Ele:
Vai um bafo?Ela:
Não.Ele:
O tabaco faz pior. Não gostas de Bob Marley?Ela riu-se. Ele deu mais um bafo e passou-o a ela, que o olhou. Ela deu um bafo pequenino, fazendo lembrar outros tempos. Há cheiros que nos fazem ir a outros locais. Dar um bafo era como estar novamente naquele sítio com aquelas pessoas.
Ele:
E se tu não gostas mesmo de mim? E se tudo não passa duma mentira? E se fores falsa como as outras?Ela olhou-o num largo silêncio. Estava a ver esta conversa a ir-se num caminho sem regresso, sem beijos e abraços.
Ele:
Olha agora — e aponta para o céu —
a cor do céu.O céu estava laranja rosado. O sol punha-se para lá do horizonte.
Ele:
Se tu um dia morresses, eu morreria logo também.
Ela:
Matavas-te?Ele:
Hum hum.Fez-se mais um silêncio longo. Permanecemos deitados na areia quietos, lado a lado. Ele com as mãos atrás da nuca, ela com as pernas cruzadas, esticadas. Passado algum tempo, quase instintivamente, levantaram-se os dois ao mesmo tempo e começaram a caminhar à beira-mar. O sol estava a pôr-se, definitivamente.
Ele:
A água está fria.Ela:
Aqui está sempre.Ele:
Vê-se os pés.Ela:
Se calhar é melhor acabarmos de vez. Para sempreEle olhou-a numa zanga de choro mudo.
Ele:
Eu vou. Enganei-me contigo. Pensava que não eras como as outras. Agora já não sei...Ele sobe a praia até ao paredão. Limpara as lágrimas. Os lábios estavam tão mordidos que deitava sangue. Ela, passado um bocado sobe a praia e quando se preparava para calçar os ténis, lá estava ele, sentado no chão, com os braços à volta das pernas, cabeça tombada entre os joelhos. Também para ela era uma visão terrível que a deixava inquieta, vazia. Ela aproximou-se dele e senta-se a seu lado.
Ela:
A vida é como um rio. Não se sabe onde começa. Depois cresce, cresce e segue sempre mesmo quando é apertado nas margens. Mas ele segue e vai ter ao mar. Abre-se todo. É a liberdade.Ele:
O nosso rio não era especial? Intenso? — questionou-a, olhando nos olhos.
Ela beijou-o com força. Como na primeira vez. Com a força da vida toda. De um reencontro. Dois corpos num só reencontro. Adiado.
Ela:
Sophia Mello Breyner dizia que não se volta a sítios onde já fomos felizes. Para não estragar as memórias.Ele:
E depois de morrer, queria voltar para viver os instantes que não viveu junto ao mar.Ela olhou-o com espanto. Sorriu. Normalmente ele não sabia destas coisas. Ela estava mesmo convencida que ele só lia jornais desportivos e revistas de carros.
Ele:
De qualquer maneira isso são tretas. Já voltámos a sítios onde fomos felizes e fomos felizes.Ela:
És feliz?Ele:
Contigo posso ser.Ele pôs as mãos nos bolsos e tirou de lá um búzio partido numa das pontas e ofereceu-a. Ela deu-lhe mais um abraço. Ele não percebia por que ela tinha dado tudo e depois tirado tudo.
Ela beijou-o. A partir desse instante ela sabia que seria preciso muito pouco para voltar a seguir por caminhos onde tinha jurado não voltar.
Silêncio outra vez entre os dois.
Ela:
Pesa os dois lados. Mede bem e vê qual queres que ganhe. Só conseguirás isso com a minha ausência. Ele:
Ajudas-me? Preciso do teu coração.Impertubável ela respondeu:
Ela:
Posso dar-te toda a minha vida. E é do coração. Mas a esperança, a fé, a vontade de vencer os teus fantasmas tem de vir de ti!Ele não consegiu conter um sorriso, o maior que alguma vez se lhe vira.