Eles seguem-me, mas eu não faço puto de ideia para onde estou a ir...

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sábado, 18 de abril de 2009

O meu telefone é como uma sirene particular. Toca. Chama. Geme. Umas vezes tem medo e não toca. Outras, alarma até se atender.

Não são telefonemas. São suspiros, pedidos calados de ajuda. Soam diariamente às dezenas de milhar. Só precisam de chamar. Não falam. Calam. Ouvem. Apenas.

Telefona-me todos os dias de madrugada. Quando eu atendo, desliga. Não preciso de falar. Eu sei quem é. Fica em silêncio. Horas e horas durante a noite.

Vou-me deitar com saudades de um tempo que já não volta. A maior parte das vezes não tenho nada para dizer. Oiço-o a respirar. Às vezes a chorar. Quando demoro mais tempo, quando a dor é maior, ele diz o meu nome. Devagar.

Eu desligo. Volto a dormir.

Eu atendo sem falar. Espero que ele diga o meu nome. Se a voz é triste, respondo. Digo o nome dele. E desligo. É a voz dele em eco. São os meus olhos transbordados d’água. São sonhos à luz de vela.

São… chamadas.

Fico acordada. Arrependo-me de ter falado. Mais uma vez. Mais um comprimido para dormir, e estou zonza de sono. Telefona-me mais uma vez, e chama por mim. E desligo antes de ele me responder.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Adeus adiado

Frente a frente. Eu e ele pareciam não ter nada a dizer, ou talvez tivessem tanto que era difícil saber onde começar. Ele olhou para o céu. Ela olhava-o com saudade do que ele foi e já não é.

Ele: Adoro esses teus olhos. São da cor do mar agitado, meio cinzentos, meio castanhos. Toda a gente repara neles. Os olhos densos, profundos, bonitos.

Sem dar conta, o que mais precisava e queria era o que agora afastava: a presença, o afecto, o amor. Algum silêncio e depois a pergunta fatal rasgada, a voz muito seca.

Ele: Posso voltar?

Ela não respndeu. Ele insistiu, engolindo a custo na garganta seca.

Ele: Um dia destes...

Ela: Podes tentar...


Uma melodia vinda não se sabe de onde chegava ao pé deles "we're alone. we're all alone".

A voz enrouquecida pelo tabaco era profunda, doce, e o olhar muito intenso, de quem se habituou a ler o mundo por ele.

Ele: És especial

Ela: Eu sei... — ri-se.

Ele: Conheci-te nesse terbulhão de idéias feitas. Muita coisa mudou. Bem, outras não... Sabes? Bati muito fundo, grandes desilusões.

Ela: Que desilusões?

Ele: Coisas que nunca te conseguirei contar. Nem a ti, nem a ninguém. Um dia, quem sabe, vais poder perceber. Foi difícil, ainda é, mas estou a tentar aguentar-me. Talvez não seja impossível manter-me à tona da água.

Ela: Nada é impossível. As coisas acontecem se nós quisermos.

Ele: Há coisas do passado que não se podem trazer de volta. Como o rio quando vai para o mar, a mesma água nunca volta.


Ela: Eu sei, o passado dói sempre. O que estás a pensar fazer da vida? Impossíveis?

Ele: Sei lá! Para já não sei.
O passado tem longos abraços e afiadas garras, capazes de deixar cicatrizes profundas. Como é que se lida com a memória e com o tempo?

Durante muito tempo ela não conseguia dormir. Tinha receio de ter os mesmos sonhos, de regressar a tempos antigos.

Ele: Às vezes acho que não amas ninguém, mas gostas de me ter por perto, para colmatar a tua solidão.

Para ela estas palavras eram urtigas a picarem na pele, tal e qual como, há uns anos atrás, as sentiu pela primeira vez com F... Ela olhou para ele. Ele tinha os olhos fixos no mar. Estava com o boné de pala que servia de sombra para quando não queria mostrar os olhos.

Ele: Não acreditas mesmo nisto do amor, pois não?

Ela: No amor?

Ele: Aquele sentimento de quando a gente gosta de alguém, que esse alguém nos vai amar, que a pessoa é verdadeira, que não é fingida, que vai gostar de nós, como somos, assim, para sempre.

Ela não responde. Faz-se silêncio entre eles. Então com a naturalidade de quem conhece, ele começou a enrolar um charro.

Ele: Vai um bafo?

Ela: Não.

Ele: O tabaco faz pior. Não gostas de Bob Marley?

Ela riu-se. Ele deu mais um bafo e passou-o a ela, que o olhou. Ela deu um bafo pequenino, fazendo lembrar outros tempos. Há cheiros que nos fazem ir a outros locais. Dar um bafo era como estar novamente naquele sítio com aquelas pessoas.

Ele: E se tu não gostas mesmo de mim? E se tudo não passa duma mentira? E se fores falsa como as outras?

Ela olhou-o num largo silêncio. Estava a ver esta conversa a ir-se num caminho sem regresso, sem beijos e abraços.

Ele: Olha agora — e aponta para o céu — a cor do céu.

O céu estava laranja rosado. O sol punha-se para lá do horizonte.

Ele: Se tu um dia morresses, eu morreria logo também.

Ela: Matavas-te?

Ele: Hum hum.

Fez-se mais um silêncio longo. Permanecemos deitados na areia quietos, lado a lado. Ele com as mãos atrás da nuca, ela com as pernas cruzadas, esticadas. Passado algum tempo, quase instintivamente, levantaram-se os dois ao mesmo tempo e começaram a caminhar à beira-mar. O sol estava a pôr-se, definitivamente.

Ele: A água está fria.

Ela: Aqui está sempre.

Ele: Vê-se os pés.

Ela: Se calhar é melhor acabarmos de vez. Para sempre

Ele olhou-a numa zanga de choro mudo.

Ele: Eu vou. Enganei-me contigo. Pensava que não eras como as outras. Agora já não sei...

Ele sobe a praia até ao paredão. Limpara as lágrimas. Os lábios estavam tão mordidos que deitava sangue. Ela, passado um bocado sobe a praia e quando se preparava para calçar os ténis, lá estava ele, sentado no chão, com os braços à volta das pernas, cabeça tombada entre os joelhos. Também para ela era uma visão terrível que a deixava inquieta, vazia. Ela aproximou-se dele e senta-se a seu lado.

Ela: A vida é como um rio. Não se sabe onde começa. Depois cresce, cresce e segue sempre mesmo quando é apertado nas margens. Mas ele segue e vai ter ao mar. Abre-se todo. É a liberdade.

Ele: O nosso rio não era especial? Intenso? — questionou-a, olhando nos olhos.

Ela beijou-o com força. Como na primeira vez. Com a força da vida toda. De um reencontro. Dois corpos num só reencontro. Adiado.

Ela: Sophia Mello Breyner dizia que não se volta a sítios onde já fomos felizes. Para não estragar as memórias.

Ele: E depois de morrer, queria voltar para viver os instantes que não viveu junto ao mar.

Ela olhou-o com espanto. Sorriu. Normalmente ele não sabia destas coisas. Ela estava mesmo convencida que ele só lia jornais desportivos e revistas de carros.

Ele: De qualquer maneira isso são tretas. Já voltámos a sítios onde fomos felizes e fomos felizes.

Ela: És feliz?

Ele: Contigo posso ser.

Ele pôs as mãos nos bolsos e tirou de lá um búzio partido numa das pontas e ofereceu-a. Ela deu-lhe mais um abraço. Ele não percebia por que ela tinha dado tudo e depois tirado tudo.

Ela beijou-o. A partir desse instante ela sabia que seria preciso muito pouco para voltar a seguir por caminhos onde tinha jurado não voltar.

Silêncio outra vez entre os dois.

Ela: Pesa os dois lados. Mede bem e vê qual queres que ganhe. Só conseguirás isso com a minha ausência.

Ele: Ajudas-me? Preciso do teu coração.

Impertubável ela respondeu:

Ela: Posso dar-te toda a minha vida. E é do coração. Mas a esperança, a fé, a vontade de vencer os teus fantasmas tem de vir de ti!

Ele não consegiu conter um sorriso, o maior que alguma vez se lhe vira.